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Mostra da Cinemateca Pernambucana reforça preservação do audiovisual

4 ago 2021|Postado em:RECIFE

 

A mostra traz obras marcantes de várias épocas do cinema pernambucano, como ‘O Canto do Mar’ (1958) de Alberto Cavalcanti (Foto: Acervo/Cinemateca Pernambucana)

A consolidação de uma arte está intrinsecamente ligada a sua preservação material e imagética na memória das pessoas. Com o cinema não seria diferente, e por isso a Cinelimite, em parceria com a Cinemateca Pernambucana, organizou uma mostra on-line para promover um intercâmbio cultural entre Estados Unidos e Brasil e destacar o cinema local para o público do mundo inteiro. Intitulada A História de uma Alma: Uma Coleção de Filmes de Pernambuco, a mostra reúne 11 filmes do acervo da cinemateca que ficam disponíveis com legendas em inglês no site da instituição (www.cinematecapernambucana.com.br) durante todo o mês de agosto.

Com curadoria de ambas as organizações, os filmes selecionados vão desde a fase do cinema mudo até os anos 90, abrangendo dois dos movimentos cinematográficos mais importantes do estado. O Ciclo do Recife, que retratou o desenvolvimento urbano da cidade na década de 20, conta com o filme Veneza Americana, de Hugo Falangola e J. Cambiere. Já o Ciclo Super-8 pernambucano, marcado pela produção independente da década de 70, traz títulos como Fabulário Tropical, de Geneton Moraes Neto. A mostra também destaca produções como O Canto do Mar (1953), de Alberto Cavalcanti, e o trabalho autoral de cineastas como Linduarte Noronha e Kátia Mesel.

Tragédia Anunciada

A mostra chega coincidentemente em um momento trágico para o cinema nacional. Na noite da última quinta-feira (29), um incêndio atingiu o galpão da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina, em São Paulo. A instituição sofria especialmente desde 2019 com a negligência do Governo Federal que encerrou contratos e deixou de pagar salários. O abandono de um material inflamável e que requer altos cuidados já havia sido alertado pelos funcionários como eminentemente perigoso há mais de um ano. Com os danos ainda sendo calculados, já se sabe a perda permanente de cópias de cinejornais, trailers, filmes domésticos, roteiros e equipamentos. Do acervo documental, foram queimados quase 60 anos de material ainda pouco estudado, como registros da Embrafilmes, INC e Concine.

Diante do ocorrido, a discussão acerca da preservação artística e da importância das cinematecas tomou conta do debate público. “A Cinemateca Brasileira é um marco e por anos tem guiado todos nós que trabalham com a preservação da memória do audiovisual no país. Lamentamos profundamente o incêndio ocorrido em um dos seus galpões”, afirma a coordenadora do Cinema da Fundação e da Cinemateca Pernambucana, Ana Farache. “Com a tragédia, todos que fazem cultura no Brasil perdem um pedaço da sua história”.


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Cinematecas regionais

Em funcionamento desde março de 2018 e atualmente com 300 filmes disponibilizados em sua plataforma on-line, a Cinemateca Pernambucana surgiu sob uma tendência necessária de criar núcleos regionais para evitar a arriscada concentração dos acervos. “Além de valorizar e fortalecer a cadeia audiovisual local, facilita o acesso do nosso acervo aos pesquisadores. Por outro lado, agiliza a coleta desse acervo justamente pela proximidade com realizadores e produtores do estado. E por último, sempre consideramos que essa seria uma maneira de dar mais segurança ao nosso acervo, não apostando apenas nas grandes instituições”, explica a coordenadora.

‘O Coração do Cinema’ (1983), de Paulo Cunha e Geneton Moraes Neto (Foto: Acervo/Cinemateca Pernambucana)

Para o pesquisador Paulo Cunha, a relação das pessoas com a memória da história cinematográfica sempre foi conturbada. “Brasileiro é um tipo curioso de saudosista. Diz que não gosta de se pautar pelo passado, mas não consegue escapar dele. E diz que respeita a memória, mas é um desastre no campo da preservação. A memória cinematográfica está aí, solta e precária”, comenta o realizador, que dirigiu ao lado de Geneton o curta O Coração do Cinema (1983), um dos selecionados para a Mostra.

O cinema pernambucano vive atualmente um novo e ótimo momento da sua história, tendo diretores cada vez mais internacionalmente reconhecidos e obras bem recebidas pela crítica e pelo público. Apesar do sucesso de exibição, olhar para o passado e conhecer mais da sua história é essencial para que este cinema continue promovendo novas reflexões e se estabeleça como uma presença perene no imaginário popular.

A rede de cinematecas regionais ajuda não só a fortalecer a Cinemateca Brasileira, que abriga os principais tesouros audiovisuais, como também pode estudar o cinema levando em conta as especificidades locais. Mais do que preservar o passado, também são importantes ferramentas para fortalecer e criar uma produção cultural mais forte no futuro. “A importância de uma instituição como essa, regional ou nacional, é incomensurável. Temos que ressaltar que uma cinemateca é uma instituição não só que coleta e guarda, mas que, acima de tudo, preserva e difunde o audiovisual produzido, além de promover debates, cursos, reflexões, mantendo assim vivas nossas produções. Uma cinemateca mantém nosso cinema preservado e em circulação, aberto para ser pesquisado, tornando-se um estímulo criativo para novas gerações de cineastas”, complementa Farache.

 

Fonte: Diario de Pernambuco

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