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Sítio do Pilar: a descoberta arqueológica no Recife que marca a história de todo o Brasil

14 maio 2022|Postado em:Notícias, RECIFE

 

Esqueleto do Sítio Arqueológico do Pilar – Foto: Melissa Fernandes/Folha de Pernambuco

Mais de 130 ossadas, algumas do final do século XVI e início do século XVII, estão sendo analisados para entender os hábitos e conhecer quem eram as pessoas que viviam na área

Crânios, fêmures, costelas, dentes. Ossos podem contar a história e os hábitos de uma determinada população e, consequentemente, de um local. Com base num arsenal de mais de 130 esqueletos, cientistas buscam revelar como era a vida dos primeiros habitantes do Recife, num achado arqueológico que pode ser o maior cemitério colonial do Brasil.

Uma descoberta que, a partir do passado na Capital pernambucana, termina por revelar partes até então desconhecidas da própria história de todo o País. Esse é um marco para o Recife e um passo indispensável para avançar em um verdadeiro descobrimento enquanto nação.

Sítio do Pilar, como foi batizado o terreno, está na comunidade homônima, no Bairro do Recife, área central da cidade. No espaço, foram encontradas mais de 130 ossadas, algumas do final do século XVI e início do século XVII, além de cerca de 200 mil fragmentos e objetos que estão sendo analisados para entender os hábitos e conhecer detalhes sobre quem eram as pessoas que viviam no local, nas décadas de 1500 e 1600.

O que esqueletos, em sua maioria, de mais de 1,70 metro podem dizer sobre o passado? Como fragmentos de utensílios de louça expõem as preferências estéticas de um povo? E mais, o que o fato de apenas um bebê estar enterrado em um caixão, enquanto os corpos “adolescentes e adultos” eram amontoados um sobre o outro, diz sobre os ritos de uma comunidade?

Por enquanto, essas perguntas seguem sem respostas, mas as possibilidades instigam todos que estão à frente desse processo de escavação e intervenção arqueológica, coordenado pelas historiadoras e professoras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Ana Nascimento e Suely Luna.

Ao lado da sua equipe, Ana também viu emergir da terra, depois de muito escavar, além dos esqueletos, ruínas de um antigo forte que estava soterrado, localizado, mais precisamente, na quadra 45.

“Existia um forte no local e, após escavações, nós identificamos parte da base dele. Em cima dos escombros, foi construída uma igreja (Nossa Senhora do Pilar, de 1680), que está de pé até hoje. Além disso, temos datações de esqueletos que são do final do século XVI e início do XVII”, afirma Ana.

Como começaram as descobertas

As pesquisas na área começaram em 2010, após uma avaliação para a construção de habitacionais destinados à população carente da região. Por se tratar de um bairro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Prefeitura do Recife contratou, à época, os serviços da Fundação Seridó que, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizou vistoria arqueológica e descobriu os primeiros vestígios de um possível cemitério colonial na área.

O processo de construção das moradias foi então interrompido e as buscas, ampliadas. O espaço foi dividido em seis quadras (25, 40, 45, 46, 55 e 60). A Fundação Seridó manteve contrato de pesquisa do Sítio até 2013 e, nesse período, foram encontrados cerca de 30 esqueletos, que atualmente estão em laboratórios da UFPE para estudo e análise.

Dois anos depois, no fim de 2015, a Fundação Apolônio Salles (Fadurpe), entidade formada por docentes da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), assumiu a responsabilidade do estudo do Sítio do Pilar e já resgatou mais de 100 esqueletos até o momento. O contrato da equipe segue até março de 2023, e a Prefeitura do Recife estima investimento de R$ 1,3 milhão na contratação de instituições para trabalhos de pesquisa na área.

Forte de São Jorge e enterramentos antes do período holandês

Historiador e professor do Departamento de História da UFRPE e responsável pela pesquisa histórica do Sítio do Pilar, Bruno Miranda lembra que iconografias datadas do início do século XVII, período anterior à ocupação holandesa (1630), já apontavam naquela área a existência de um forte português, denominado Forte de São Jorge. Responsável pelos levantamentos cartográficos e documentais do espaço, ele conta que o local era ilustrado nas imagens com estrutura semelhante à de um castelo, devido às muralhas muito elevadas.

“Era uma fortificação para a defesa do caminho entre Recife e Olinda, e usado como proteção para o que adentrava no Porto. Cruzava fogo com outra fortificação no arrecife para impedir que embarcações entrassem na área”, afirma Bruno.

As representações da época também mostram que, nas proximidades dessa estrutura militar, fora do cerco habitado, havia um espaço frequentemente simbolizado por uma cruz, sinal usado para indicar áreas de sepultamentos.

“Há indicação da existência de um cemitério no local em alguns documentos históricos. Os registros mais antigos são de antes da chegada dos holandeses. Então, temos material não somente arqueológico, mas também iconográfico para dizer que a área era usada para enterramentos antes da chegada dos holandeses”, informa o historiador.

Bruno Miranda diz que ainda não há uma definição de quais povos foram enterrados naquele espaço. “Não cravaria o local apenas como cemitério militar até que se tenha um perfil dos enterrados. Além disso, precisamos fazer a datação das ossadas para realizar a cronologia”, pontua.

Novos enterramentos após domínio holandês

Os sepultamentos no Sítio do Pilar não se limitaram ao período anterior à invasão holandesa. Em uma outra quadra escavada pelos pesquisadores da UFRPE, a 25, foram encontrados esqueletos em baixa profundidade – cerca de um metro – ou seja, em local de aterro provindo do processo de urbanização da área. Já os indivíduos datados do final do século XVI foram localizados no istmo (camada de areia original e que está numa profundidade abaixo de 2 metros da superfície).

Miranda explica que, diante da presença holandesa no Recife, a partir de 1630, e da expansão habitacional daquela área portuária, o Forte de São Jorge passou a ter um outro uso, tornando-se um hospital onde soldados e trabalhadores doentes do ancoradouro eram levados e podem ter morrido, sendo sepultados no terreno do Sítio do Pilar.

“Temos muitas perguntas para responder, mas já é possível dizer que o uso do hospital pelos holandeses tem uma conexão com as ossadas encontradas. Ou seja, houve um incremento da prática de enterramentos naquele local”.

O hospital funcionou durante parte substancial da presença holandesa, mas até agora não se sabe até quando ocorreram os sepultamentos no Sítio. Há a hipótese de que a população local tenha perdido a referência de que naquele espaço havia enterramentos, sendo o terreno posteriormente aterrado e construções, feitas sobre ele.

Escavações e as descobertas da quadra 55 

Três das seis quadras do Sítio (40, 46 e 25) já foram exploradas totalmente e liberadas para uso da Prefeitura do Recife. A 45, onde está o forte, foi parcialmente verificada; assim como a 55, que está sendo analisada atualmente, faltando ainda a de número 60.

Para efetuar a escavação e o estudo dos ossos encontrados, foi convidada a bioarqueóloga, doutora em Antropologia Biológica pela Universidade de Coimbra (Portugal) e professora do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal do Piauí, Claudia Cunha, que usou a metodologia “antropologia do terreno” para identificar a área.

“É uma metodologia que procura recolher o máximo de informações de cada esqueleto e do terreno. Detalhes sobre como eram as pessoas fisicamente, sexo, altura, idade, além das doenças que estão marcadas no esqueleto”.

Na quadra 55, foram encontrados ossos em níveis mais profundos de escavação, abaixo de 2 metros de profundidade. De acordo com a bioarqueóloga, dos 102 esqueletos achados no local, apenas dois eram de mulheres. E todos foram enterrados em mortalhas.

“Notamos que era um cemitério muito organizado. A maioria das pessoas foi enterrada com os pés voltados para o mar, todos enfileirados. Essa ordenação é de um cemitério supervisionado, planejado”.

Dois dos esqueletos encontrados na área mais profunda da quadra 55 já foram datados e são do final do século XVI e início do século XVII. “No nível mais baixo, estão os mortos mais antigos. Após a zona ser aterrada, vinham outros mortos, e assim por diante. O que a gente sabe a partir disso é que os esqueletos mais antigos encontrados até agora são da época da fundação do Recife”.

Estatura dos esqueletos pode revelar indivíduos

Claudia informou, ainda, que um grande número de esqueletos encontrados na quadra 55 são de indivíduos com mais de 1,70 m de altura. Entre eles, o de uma jovem adolescente de 14 anos, com 1,76 m.

“Provavelmente, não eram daqui. A média de estatura não é da população brasileira, nem portuguesa e nem indígena. A gente vai proceder a análise dos dentes para saber exatamente de onde essas pessoas vieram”, afirma.

A partir dos dentes, explica ela, é possível realizar uma análise que leva em conta 52 características da dentição humana. “A partir dessas características, a gente aplica uma análise estatística comparando os dentes de uma pessoa com a base de dados mundial que tem cerca de 30 mil indivíduos de todas as partes do planeta. O teste me diz que população esse indivíduo é mais próximo biologicamente”.

Esqueleto de bebê é encontrado na quadra 25

No último dia 18 de abril, durante a escavação da área 25, foi encontrado o primeiro esqueleto de um bebê, com idade entre quatro e seis meses de vida. Ele foi enterrado sobre outro indivíduo que já estava no espaço e encontrado em meio a ruínas de um caixão com base de ferro e confeccionado com pregos artesanais. O crânio estava esmagado, possivelmente pela pressão do solo.

Segundo Claudia Cunha, o bebê deve ter morrido há mais de cem anos. Uma investigação nos ossos da criança poderá informar sobre a saúde da população que vivia ali.

“A olho nu, não conseguimos verificar o sexo de crianças em material esqueletizado, mas vamos fazer uma análise genética de fragmento dos ossos nos Estados Unidos. Pela análise de isótopos, poderemos verificar a alimentação da mãe, que é absorvida pela criança por meio do leite materno”, explica.

Diferente da quadra 55, onde os esqueletos estavam ordenados, a 25, onde a criança foi encontrada não segue uma padronização rígida de enterramentos, sendo identificados indivíduos em posições diferentes e muito próximos uns dos outros.

“A construção desse cemitério acompanha a construção da ilha. Na medida que ela ia crescendo para cima e para os lados, o cemitério ia acompanhando. Os achados são um registro material de como a cidade nasceu e cresceu. A expectativa é que o Sítio do Pilar se torne o maior cemitério colonial do país em número de indivíduos”.

As datações e demais análises refinadas do achado arqueológico estão sendo feitas por radiocarbono no laboratório Beta Analytics, nos Estados Unidos. A professora Caroline Borges, do Departamento de História da UFRPE, é a responsável pela análise de isótopos que também será feita nos Estados Unidos. Esta análise trará informações sobre a alimentação das pessoas enterradas no Pilar.

Análise e armazenamento dos achados 

O espaço de armazenagem do material encontrado no terreno do Pilar é o laboratório do Núcleo de Ensino e Pesquisas Arqueológicas (Neparq), da UFRPE. A responsável pelo acervo é a historiadora e professora da instituição Suely Luna, coordenadora geral do projeto.

Além dela e dos demais arqueólogos envolvidos, outros 10 estudantes de graduação e especialização realizam pesquisa, catalogação, higienização e guarda dos achados no laboratório.

Os esqueletos estão armazenados em várias bandejas identificadas, que ficam numa sala com refrigeração em temperatura média em torno de 25º C e com pouca luz para evitar o processo de ressecamento dos ossos.

Já os cerca de 200 mil fragmentos e peças encontrados estão catalogados, fotografados e separados em embalagens plásticas, dentro de caixas organizadoras que ultrapassam mil unidades. Elas estão acomodadas em várias prateleiras de uma outra sala do laboratório.

Foram achadas louças em cerâmica e em outros materiais; cachimbos; embalagens de vidro; faianças portuguesas do final do século XVI; garrafas de champanhe, gin e vinho de diferentes nacionalidades. Há, ainda, balas de canhão pequenas e a metade de uma bala de canhão média.

“Na região onde está o Pilar, havia estruturas de antigas casas do século XIX que foram derrubadas à medida em que houve um abandono da região. Esse material encontrado não está associado aos enterramentos, mas conta as mudanças de hábitos e a história do local. Temos peças belíssimas que já conseguimos restaurar. A gente consegue reconstituir a partir de desenhos. É um trabalho muito grande”, informa Suely Luna.

“Para além dos vestígios, fragmentos e ossos, nós estamos contando a história de pessoas que viveram naquele local e que foram apagadas. Queremos falar e entender o cotidiano delas, que é o mais importante. A UFRPE é hoje a guardiã desse material. Tudo que a gente faz fica disponibilizado para o Iphan, porque é patrimônio de todos nós. Nosso desejo é que seja exposto para a população”.

Sobre a possibilidade de ampliar o acesso do material ao público em geral, a Prefeitura do Recife informou, por meio de nota, que estuda transformar o Sítio do Pilar em um parque arqueológico, mas não deu detalhes da proposta.

“A gestão municipal está formando um grupo de estudos que inclui o Instituto Pelópidas Silveira, a URB e a secretaria de Infraestrutura para definir quais serão os próximos passos. A ideia é preservar o material e a área e construir novas alternativas para a execução dos habitacionais planejados, conciliando a preservação do patrimônio histórico com a necessidade de criação de moradias”, informa a prefeitura da cidade.

 

Veja mais  Folha de Pernambuco

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